quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Racismo vísivel na mão invísivel

CENTRO DE ESTUDO PESQUISA E APLICAÇÃO PAN-AFRICANISTA (CEPAPA)
Aprendendo com o passado


Investigar a história e cultura dos povos africanos e afro-diáspora.

Racismo vísivel na mão invísivel


O argumento utilizado para referir-se a África como continente sem povo, sem nação, nem estado, sem passado, sem história, esta informação não procede. Pois esse tipo de "exformação" propagada massivmente por todos os meios possíveis, faz com que na cabeça de diversos indíviduos se aliene a essa exformação, transformando-a em conhecimento absoluto na consciência do seu ser. tirando conclusões como: - A África esta no grau inferior da escala evolutiva; - Os povos da África são primitivos.
Acreditando que em tempos remotos uma parte da  África ficou branca por esta próximas aos europeus ocidentais, e povos do mediterrâneo que era separado pelo deserto do Saara e não tinham comunicação entre si, esse tipo de afirmação faz parte dos planos políticos ideológicos dos neoimperialistas. Tal Discurso utiliza imagens e suas teorias convincentes, alienantes.
No filme "A Múmia" mostra o Faraó Egípcio.
Imothep o Faraó Egípcio é preto, no cinema mostra que Imothep seria branco.








Mas o vídeo abaixo mostra estudo feitos por Phds:

  video


Podendo citar do  Carolus Linnaeus/ Carlos Lineu (1707 - 1778)Carolus Linnaeus, em português Carlos Lineu, e em sueco após nobilitação Carl von Linné (23 de Maio de 1707 - 10 de janeiro de 1778) foi um botânico, zoólogo e médico sueco, criador da nomenclatura binomial e da classificação científica, sendo assim considerado o "pai da taxonomia moderna". Foi um dos fundadores da Academia Real das Ciências da Suécia. Lineu participou também no desenvolvimento da escala Celsius (então chamada centígrada) de temperatura, invertendo a escala que Anders Celsius havia proposto, que tinha 0° como ponto de ebulição da água e 100° como o ponto de fusão.

Em seu livro "sistema naturae" , Charles Linné, ele classifica o homo sapien como:
"... classificada em cinco variedades, cuja principais delas são: sumareadas em seguida:
A) Homem selvagem, quadrúpede, mudo, peludo. B) Américano: cor de cobre, colérico, ereto, cabelo negro, liso, expesso, narinas largas, semblante rude, barba rala, obstinado, alegre. pinta-se com finas linas vermelhas e guia-se por costumes. C) Europeu: claro, sanguineo, musculoso, cabelo loiro, castanho, ondulado, olhos azuis, delicado, perspicaz, inventivo. Coberto por vestes justas, governado por leis. D) Asiático: escuro melancólico, rígido, cabelo negros, olhos escuros, severos, orgulhosos, cobiçosos. Coberto por vestimentas soltas. Governados por opniões. E) Africano: negro, fleumático, relaxados, cabelos negros, espesso, pele acelinada, nariz achatado, lábios túmidos, engenhosos, indolente, negligênte. Untta-se com gordura. É governado pelo capicho."¹
1. Burke, Jonh G." the wild man's pedigree". In. DUDLEY, Edward e Novak, Maximiliam. The wild man within. Pettsbugh, Pettsbugh:UP., 1972, pp. 266-7. Apud Pratt Mary Louse. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru/São Paulo: Edusc, 1999, p. 68.

Esse tipo de pensamentos justificou o discurso politíco ideológico europeu, usado para a escravização e trafico de povos africanos.
Sendo reforçado pelo filosofo Friedrich Hegel (1770 - 1831) como porta-voz do pensamento hegemônico do fim do século XVIII e todo século XIX. Hegel e seu livro " filosofia da história universal", aistóricidades da África decorre em duas razões interdependente.
oit1- pelo faro de a história ser entendida como propósito do velho mundo que exclui a África Subsaariana;
2- por conceber o africano como sem autonomia para construir sua propria história.
onde ele cita: " a África propriamente dita é a parte caracterista deste continente, começamos pela consideração deste continente. Porque em seguida podemos deixar de lado por assim dizer. Não tem interesse histórico proprio, senão os de que os homens vivem ali na barbarie e na selvageria, sem fornecer nenhum elemento a civilização. Por mais que retrocedamos na história, acharemos que a áfrica estará sempre fechada no contato com o resto do mundo, é um Eldorado recolhido em si mesmo, é o País criança, envolvido na escuridão da noite aquem da luz da história consciente.[...] nessa parte principal da África não pode haver história "²
2- Hegel, George W. F. filosofia de la historia universal. Madri: revista de Ocidente. 1928, t.1 p. 190 e192.

Como aceitar tal definição do Continente Berço da Humanidade ?
Que tipo de idéia ele deseja propagar quando afirma isso de nossos Ancestrais?
Desrespeito completo a nós e nossos ancestrais, como dizer que somos selvagens tratando como algo pejorativo o fato de vivermos em harmonia com a natureza, respeitando os seres que vivem na terra e merecem respeito igualmente a nós. Logo vemos onde a humanidade quer chegar quando acredita e transfomra em verdade pensamentos produzidos por Hegel  e seus sucessores, que vem aumentando cada vez mais quando forma estudantes em colégios e universidades com a visão distorcida, insuficiente da realidade e verdade, sem interesse de reconhcer o valor do continente e povos africanos.
Como continuar seguindo ou dar continuidade a um pensamento como o de Hegel?
Que escreve: " ... Aqui o homem em seu estado bruto tal é o homem na África. Por quanto o homem aparece como homem, põe-se em oposição a natureza, assim é como se faz homem.
Mas, por quanto se limita, se diferenciar-se da natureza, encontra-se no primeiro estágio, dominadopela paixão, pelo orgulho e a pobreza; é um homem estúpido. No estado de selvageria achamos os africanos enquanto podemos observar e assim ter perrmanecido. O negro representa o homem natural em toda sua barbárie e violência; para compreende-lo devemos esquecer  todas as representações europeias.  Devemos esquecer Deus e a Lei moral. Para compreende-lo exatamente, devemos abstrair de todo respeito e moralidade, de todo sentimento. Tudo isso esta no homem em seu estado bruto, e cujo carater nada se encontra que pareça humano."³
3- Hegel, George W. F., op. cit. pp. 193 e 194.

Pura cegueira mental pensar isso de um continente tão rico. Em nosso subsolo africanos possui uma infinidade de minerais como: cobalto, ouro, diamante, cobre, etc. Posso dizer que o subsolo africano é peça fundamental para o desenvolvimento industrial de diversos países, inclusive aqueles que escrevizou e colonizou a África. no entanto esse discurso feito por Hegel, serve para mascarar as atrocidades feita pela europa para consegui a riqueza africana, e assim afronta nosso povo africano quando diz que "para ser homem tem que opor-se a natureza." Vemos o desrespeito completo pela natureza, ou seja, na visão deles devemos nos opor a tudo que esta ao externo. Mas para nós africanos não existem dicotomia entre homem e natureza, pensamos na unidade viv, onde todos fazem parte de um Único ser.
Pensar assim não é barbárie nem violência. Vejo este pensamento de Hegel totalmente distorcido e limitado, pois para querer opor-se a algo que é maior que você, terá que usar a violência e a barbárie para conseguir vencer e se impor.

Immanuel Kant ou Emanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de 1724 – Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.
12 de fevereiro de 1804 com 80 anos de idade, Kant faleceu em Königsberg, após prolonagada doença que apresentava sintomas semelhantes à Doença de Alzheimer. Já não reconhecia sequer os seus amigos íntimos.


                            
Podemos ver que ambos tem visão preconceituosa sobre a África.
Em 1883 a Itália havia submetido uma pequena parte da Líbia, Eritréia e costa da Somália em 1886 comunicou as demais potências européias o seu dominio sobre a Etiópia, transformando--a em protetorado. A Itália reinvidicou para si a Etiópia, apoiada no capitulo VII, das disposições gerais, artigo 2º, data geral da conferência de Berlim. Mas imposibilitada de cumprir a obrigatoriedade da ocupação efetiva, a Etiópia continuou um terriitório livre em um continente partilhado e conquistado pela europa. 
O Etiópes sob o reinado de Menelik II (1893), com o império unido e o exército numericamente grande e bem equipado, foram capazes de derrotar os italianos em Adowa, no ano de 1896. Mostrando que a união dos povos que vivem na região da nascente do Nilo, Etiópia, em toda sua diversidade cultural vivem harmoniasamente e vence o mau que a todo momento tenta invadir e dominar. O homem original preto, original blackman, conheece  sua fé, a ponto de acontecer em 1893, Menelik diz: "A Etiópia não precisa de ninguém, Ela estende as mãos para Deus".
Como dizer que os africanos não tem moral e não acreditam em Deus?

Existe um conjunto de valores e caracteristicas pelo decorrer desse blog, mostraremos o porque a Etiópia ser considerada um País/Nação com passado glorioso e um futuro proprio de uma grande nação capaz de manter a sua liberdade. Dessa forma a Etiópia torna-se referência central de movimentos pan-africanos, de independência cristã, e também de projetos politícos de longo prazo na África e afro-diáspora. 

Os estudos antropológicos que referencia kant como importante pensador, que retoma a tradição de uma geografia voltada pra antropologia, Kant propunha descrever a realidade humana num livro publicado em 1802 no qual se referia aos africanos do sul do Saara como "homens que cheiram mau" e tem pele negra por "maldição divina". Kant, Emmanuel. Geographie. Paris: Aubier, 1999."



Por Ras Tonton Fya Burning.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CEPAPA - Agindo!!

Aprendendo com o passado
 Investigar a história e cultura dos povos africanos e afro-diáspora.
BLOG:  http://cepapa.blogspot.com                      
 E-MAIL centropanafricano@gmail.com

O projeto CEPAPA AGINDO, dedica-se a trazer uma literatura que não é discutidos na educação convencional. Logo a proposta do CEPAPA  é trazer ao conhecimento dos participantes do projeto a apresentação de autores e pensadores africanos e africanistas, para melhor compreendermos nossa situação social.  
QUADRO DE ATIVIDADES CEPAPA – MÊS DE OUTUBRO/NOVEMBRO 2010
HRS/DIAS
SEGUNDA
TERÇA
QUARTA
QUINTA
SEXTA
SÁBADO
14:00 16:00
LEITURA
LEITURA
LEITURA
LEITURA
LEITURA
ATIVIDADE
 EXTENSÃO
16:00
18:00
OFICINA DE TEXTO
OFICINA DE DANÇA AFRO
FILMES E VIDEOS
OFICINA DE DANÇA AFRO
FILMES E VIDEOS


Local: Rua Muniz Sodré n°40 Outeiro (Alto São Sebastião) – centro – Ilhéus – Bahia.
É onde acontece as atividades do CEPAPA, com leitura de autores africanos e africanistas, é envolvido também outras atividades relacionada com a cultura afro. 
FOTOS DO MÊS DE OUTUBRO, NOVEMBRO E DEZEMBRO  DO PROJETO CEPAPA AGINDO

O CEPAPA vem envolvendo suas atividades de entendimento do Pan-Africanismo, de segunda a sexta das 14:00 às 18:00. Sendo que as sextas feiras à partir das 20:00 tem exposição de videos e discussão Pan-africano.Na foto esta sendo apresentado as ideias de W. Du Bois e de Marcus Garvey. 
Amostra de videos: Violentamente pacífico, com Ras MC Léo Carlos.






                                                   Logo após as apresentrações acontece o ensaio do Bloco Afro MiniKongo, Bloco da propria comunidade (Outeiro), que esta comemorando 30 anos de existência, representando a cultura negra.

A cultura de matriz africana sendo expressa através de sua estética e dança.
Com movimentos caracteristicos de nossa ancestralidade africana.




































E o movimento afro continua ao som do Minikongo e seu Samba Reggae.


Publicado por: Ras Tonton Fya Burning & Estevinho

domingo, 17 de outubro de 2010

A Tradição Viva

 
A. Hampaté Bâ




"A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é a luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente."
                                                                    Tierno Bokar¹


Árvore Baobá                                                                                                                                                                                       

                                                           Quando falamos de tradição em relação à historia africana, referimo-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apóie nessa herança de conhecimentos de toda espécie, pacientimente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ainda não se perdeu e reside na memória da última geração de grandes depositários, de quem se pode dizer são a memória viva da África.
    Entre as nações modernas, onde a escrita tem precedência sobre a oralidade, onde o livro constitui o principal veículo da herança cultural, durante muito tempo julgou-se que povos sem escrita eram povos sem cultura. Felizmente, esse conceito infundado começou a desmoronar após as duas últimas guerras, graças ao notável trabalho realizado por alguns dos grandes etnólogos do mundo inteiro. Hoje, a ação inovadora e corajosa da Unesco levanta ainda um pouco mais o véu que cobre os tesouros do conhecimento transmitidos pela tradição oral, tesouros que pertencem ao patrimônio cultural de toda a humanidade.
    Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se é possivel conceder à oralidade a mesma confiança que se concede à escrita quando se trata de testemunho de fatos passados. No meu entender, não é esta a maneira correta de se colocar o problema. o testemunho, seja escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale o que vale o homem.
   Não faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos séculos como no próprio indivíduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o cérebro dos homens. Antes de colocar seus pensamentos no papel, o escritor matém um diálogo secreto consigo mesmo. Antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal como lhe foram narrados ou, no caso de experiência própria, tal como ele os narra.
   Nada prova apriori que a escrita resulta em um relato da realidade mais fidedigno do que o testemunho oral transmitidos de geração a geração. As crônicas das guerras modernas servem para mostrar que, como se diz (na África), cada partido ou nação "enxerga o meio-dia da porta de sua casa" - através do prisma das paixões, da mentalidade particular, dos interesses ou ainda, da avidez em justificar um ponto de vista. Além disso, os próprios documentos escritos nem sempre se mantiveram livres de falsificações ou alterações, intencionais ou não, ao passarem sucessivamente pelas mãos dos copistas - fenômeno que originou, entre outras, as controvérsias sobre as "Sagradas Escrituras".
   O que se encontra por detrás do testemunho, portanto, é o próprio valor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmição de qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias individual e coletiva e o valor atribuído à verdade em uma determinada sociedade. Em suma: a ligação entre o homem e a palavra.
   É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem esta ligado a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é.  A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra. Em compensação, ao mesmo tempo que se difunde, vemos que a escrita pouco a pouco vai substituindo a palavra falada, tornando-se a única prova e o único recurso; vemos a assinatura torna-se o único compromisso reconhecido, enquanto o laço sagrado e profundo que unia o homem à palavra desaparece pregressivamente para dar lugar a títulos universitários convencionais.
    Nas tradições africanas - pelo menos nas que conheço e uqe dizem respeito a toda região de savana ao sul do Saara -, a palavra falada se empossava, além de um valor moral fundamental, de um caráter sagrado vinculado à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas. Agente mágico por excelência, grande vetor de "forças etéreas", não era utilizada sem prudência.
   Inúmeros fatores - religiosos, mágicos ou sociais - concorrem, por conseguinte, para preservar a fidelidade da transmissão oral. Pareceu-nos indispensável fazer ao leitor uma breve explanação sobre os fatores, a fim de melhor situar a tradição oral africana em seu contexto o esclarecê-la, por assim dizer, a partir do seu interior.
   Se formulássemos a seguinte pergunta a um verdadeiro tradicionalista* africano: "o que é tradição oral?", por certo ele se sentiria embaraçado. Talvez responde simplesmente, após longo silêncio: "É o conhecimento total".
   O que, pois, abrange a expressão "tradição oral"? que realidades veicula, que conhecimento transmite, que ciência ensina e quem são os transmissores?
   Contrariamente ao que alguns possam pensar, a tradição oral africana, com efeiro, não se limita a histórias e lendas, ou mesmo a relatos mitológicos ou históricos, e os griots estão longe de ser seus únicos guardiães e transmissores qualificados.
    A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona todos os aspectos. pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o segredo e desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias bem definidas. Dentro da tradição oral, na verdade, o espiritual e o material não estão dissociados. Ao passar do esotérico para o exotérico, a tradição oral consegue colocar-se ao alcance dos homens, falar-lhes de acordo com o entendimento humano, revelar-se de acordo com as aptidões humanas. Ela é ao mesmo tempo religião, conhecimento, ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez que todo por menos sempre nos permite remontar à Unidade primordial.
   Fundada na iniciação e na experiência, a tradição oral conduz o homem à sua totalidade e, em virtude disso, pode-se dizer que contribuiu para criar um tipo de homem particular, para esculpir a alma africana.
   Uma vez que se liga ao comportamento cotidiano do homem e da comunidade, a "cultura" africana não é, portanto, algo abstrato que possa ser isolado da vida. Ela envolve uma visão particular do mundo, ou, melhor dizendo, uma presença particular no mundo - um mundo concebido como um Todo onde todas as coisas se religam e interagem.
   A tradição oral basea-se em uma certa concepção do homem, do seu lugar e do seu papel no seio do universo. Para situá-la melhor no contexto global, antes de estudá-la em seus vários aspectos devemos, portanto, retornar ao próprio mistério da criação do homem e da instauração primordial da Palavra:o mistério tal como ela o revela e do qual emana.

¹ Tierno Bokar Salif, falecido em 1940, passou a sua vida em Bandiagara (Mali). Grande mestre da ordem mulçumana de Tijaniyya, foi igualmente tradicionalista em assuntos africanos. CF. Hampaté Bâ, A. w Cardaire, M., 1957. 
* O termo tradicionalista significa, aqui, detentos do conhecimento transmitido pela tradição oral (N. do T.). 

 CEPAPA - Centro de Estudo, Pesquisa e Aplicação Pan-Africano - nos reunimos todas as tardes no Espaço Cultural Casa Aberta no Outeiro -centro/Ilhéus -Todas as tardes das 14:30 às 18:00 com leitura - debate - oficinas.  

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

EDUQUE-SE



Em casa ou na rua
Eduque-se - Por Marcus Mosiah Garvey
Nunca se deve deixar de aprender. Os maiores homens e mulheres do mundo foram
pessoas que educaram-se fora das universidades, com todo o conhecimento que a
universidade oferece, você tem a oportunidade de fazer o que os estudantes das
universidades fazem: ler e estudar.
Nunca se deve deixar de ler. Leia tudo o que possa que seja de conhecimento padrão.
Não desperdice seu tempo lendo literatura que são lixos. Leia, não preste nenhuma
atenção às novelas de dez centavos, as histórias do velho oeste ou livros de romances
baratos. Mas onde há uma boa trama e uma boa história na forma de uma novela, as
leia. É necessário as ler com o propósito de obter informações sobre a natureza
humana. A idéia é que a experiência pessoal não é suficiente para um humano obter
todo o conhecimento útil da vida, porque a vida individual é muito curta, por isso deve
ser alimentada pela experiência dos outros. A literatura que lemos devem incluir a
biografia e a autobiografia de homens e mulheres que tenham alcançado a grandeza em
sua linha particular. Quando puder compre a esses livros e os leia, enquanto você os lê
faça anotações, a lápis ou caneta, sobre as informações importantes e parágrafos que
você gostaria de lembrar, assim, quando tiver que recorrer ao livro, por qualquer
pensamento que você tenha sobre ele e gostaria de refrescar a sua memória, não terá
de ler o livro inteiro.
Você deve ler a melhor poesia de inspiração. Os poetas padrão sempre foram os
maiores criadores de inspiração. Em uma boa linha de poesia, você poderia começar a
inspiração para a corrida de sua vida. Muitos grandes homens e mulheres foram
inspirados por uma linha atrativa de poesia ou verso.
Há poetas bons e maus poetas, como há romances bons e maus romances. Sempre
selecionar os melhores poetas para aumentar a sua inspiração.
Leia a história incessantemente até dominá-la. Isto significa a sua própria história
nacional, história do mundo, a história social, história industrial, e a história de várias
ciências, mas principalmente a história do homem, se você não sabe o que aconteceu
antes de vir aqui e o que está acontecendo no tempo em que vive, longe de você, não
conhecer o mundo e ser ignorante do mundo e da humanidade.
Você só pode fazer o melhor da vida para conhecer e entender, de saber que você
pode mergulhar na inteligência dos outros que vieram antes de você e não deixaram os
seus registros.
Para ser capaz de ler com inteligência, você deve primeiro ser capaz de lidar com a
língua de seu país. Para fazer isso, você deve estar bem familiarizado com sua
gramática e conhecimento dela. A cada seis meses, você deve ler mais uma vez sobre a
ciência da linguagem falada, portanto não se esqueça das regras. As pessoas te julgam
pela sua expressão escrita e oral. Se você falar e escrever corretamente, predispondoos
a sua inteligência, e se você falar mal e incorretamente, aqueles que ouvi-lo, é
repugnante e não prestar atenção, mas em seus corações vão rir de você. Um líder que
ensinar aos homens sem apresentar nenhum fato de verdade para o homem deve
primeiro ser aprendido em seu sujeito.
Nunca ler ou escrever sobre um assunto sobre o qual você não sabe nada, pois há
sempre alguém que sabe sobre o determinado assunto para rir de você ou fazer uma
pergunta embaraçosa que poderiam fazer os outros rirem de você. Você pode aprender
sobre qualquer assunto, sob o sol, lendo sobre o assunto. Se você não pode comprar
livros de uma só vez e os possuir, vá para bibliotecas públicas os leia lá, ou peça que
sejam entregues, ou vá participar de uma biblioteca em seu distrito ou vila para a
utilização desses livros. Você deve fazer isso para que você possa consultá-las para
obter informações.
Você deve ler pelo menos quatro horas por dia. O tempo de leitura é melhor na parte
da tarde depois que você se aposentou do seu trabalho e descansou, e antes de dormir,
mas fazê-lo antes do amanhecer, de modo que o que você leu se torna o seu sub
consciente. Ou seja, plantado em sua memória. Nunca vá para a cama sem fazer
algumas leituras.
Nunca manter a companhia constante de alguém que sabe tanto quanto você, ou não
tão educada como você e que não possa aprender algo ou traga queda de seu
conhecimento, especialmente se essa pessoa é analfabeta ou ignorantes, para a
associação constante com essas pessoas causará de ser levado para a cultura peculiar
ou ignorância dessa pessoa. Sempre tente associar com pessoas que você pode
aprender alguma coisa. O contato com pessoas cultas e de livros é a melhor companhia
que você pode tomar e manter.
Ler bons livros mantem a empresa dos autores ou dos temas do livro, quando você não
consegue encontrar outra forma de contato social da vida. Inteligência é nunca descer
para aqueles que estão abaixo de você, mas se possível para ajudar a elevar o seu nível
e sempre tenta superar aqueles que estão em cima de você e ser igual a eles na
esperança de ser seu professor.
Continue sempre em aplicar o que você deseja educativo, cultural, ou não, e nunca
desista até alcançar o objetivo. Você pode alcançar sua meta, se a outro (s) terem feito
antes, provando que eles fizeram isso, é possível.
No seu desejo de alcançar a grandeza, primeiro você precisa decidir em sua própria
mente sobre qual direção você quer encontrar tal grandeza, quando você tiver decidido
em sua própria mente trabalhe incessantemente para isso. O algo especial que você
quer ser capaz de alcançar pode estar diante de voce o tempo todo, faça o que for
preciso para obter ou o que seja possível, deve ser feito. Use a sua autoridade e
persuasão para alcançar especialmente porque você determina em sua mente. Nunca
tente repetir para si mesmo em um discurso novo e de novo repetindo a mesma coisa,
exceto quando se desenvolvem novos pontos, porque a repetição é cansosa e
perturbadora aqueles que ouvem a repetição. Portanto, tentar ter tanto conhecimento
como possível universal através da leitura de modo a ser capaz de se libertar da
repetição para tentar conduzir a um ponto.
Ninguém é velho demais para aprender. Portanto, você deve aproveitar todas as
facilidades educacionais. Se você ouvir de um grande homem ou uma mulher que vai
dar uma palestra ou falam em sua cidade sobre um determinado assunto e da pessoa é
uma autoridade no assunto, sempre arranjar tempo para ir e ouvir. Isto é o que se
entende por aprender com os outros. Você deve aprender os dois lados para cada
história, de modo a ser capaz de debater a questão e manter adequadamente sua causa
com o lado que eles suportam. Se você só conhece um lado da história, você não pode
discutir com inteligência e eficácia. Como exemplo, para combater o comunismo, você
deve saber sobre ele, senão as pessoas vão ter prioridade e você vai ganhar uma
vantagem sobre a sua ignorância.
Tudo o que você enfrenta, primeiro você deve saber sobre ele, de modo a ser capaz de
derrotá-lo. Quando você for ignorante sobre algo que enfrenta, a pessoa com o
entendimento sobre este algo vai esmagá-lo. Por isso, obter conhecimento, obtenham
rápido, obtenham estudos, mas não os utilizade de qualquer maneira.
Conhecimento é poder. Quando você sabe alguma coisa, você pode manter o seu
terreno neste conhecimento e vencer seus oponentes nele , aqueles que ouvem você
aprendem a ter confiança em você e confiar em sua capacidade.
Nunca, portanto, ofenda a nada sem poder defendê-lo sobre isso, porque toda vez que
você é derrotado leva o seu prestígio você não é tão respeitado como sempre.
Todo o conhecimento que você quer está no mundo, e tudo que você tem a fazer é ir à
procura, e não parar até que você encontrar. Você pode encontrar conhecimento ou
informação sobre o assunto em bibliotecas públicas, se não na sua própria biblioteca.
Tente ter um livro, e possuí-lo, em cada pouco conhecimento o que você deseja. Você
normalmente pode obter estes livros em lojas de segunda mão, por vezes, um quinto
do preço original.
Sempre tem uma estante totalmente equipada com livros. A maioria das informações
sobre a humanidade pode ser encontrada na Enciclopédia Britânica. Este é um livro
caro, mas tente obtê-lo. Compre uma edição completa para você e para manter a sua
casa, e quando você estiver em dúvida sobre algo, leia e você vai encontrar lo.
O valor do conhecimento é utilizá-lo. Não é humanamente possível para uma pessoa a
manter todo o conhecimento do mundo, mas se uma pessoa sabe como procurar o
conhecimento de todo o mundo, ela vai encontra-lo quando quiser.
Um médico ou um advogado, mesmo após a aprovação de sua formação na faculdade
Não conhece todas as leis nem conhece todas as técnicas da medicina, mas possui
todos conhecimentos fundamentais. Quando busca um determinado tipo de
conhecimento sabe se direcionar para os seus livros médicos ou livros de direito e
remete para a lei especial, ou como usar a prescrição do medicamento. Você deve,
portanto, saber onde encontrar seu conhecimento e usá-los como quiser. Ninguém vai
saber onde você obteve-los, mas você tem que saber usá-los corretamente, eles vão
achar você uma pessoa maravilhosa, um grande gênio, e um líder confiável.
Ao ler não é necessário ou obrigatório que você concorde com tudo que você lê. Você
deve sempre ler ou aplicar o seu próprio raciocínio para o que você leu com base no
que já sabe sobre os fatos do que você leu. Execute um teste em tudo que você lê com
base nesses fatos. Quando eu digo fatos eu quero dizer coisas que não podem ser
contestadas. Você pode ler velhos pensamentos e opiniões que são antigas e foram
alterados desde que foram escritas. Você deve sempre procurar encontrar os últimos
acontecimentos sobre esse assunto específico, e só quando esses fatos são
consistentemente sustentado no que você lê, você deve concordar com eles. Caso
contrário, você tem direito a sua própria opinião.
Sempre tenha conhecimento atual. Você pode encontra-lo a partir de livros anteriores
e recentes publicações, revistas e jornais. Leia o seu jornal diário em cada dia. Ler um
jornal todos os meses contribui para um padrão mensal, leia a revista trimestral, este
conhecimento vai contribuir para todo o ano e para além dos livros que você ja leu,
cujos fatos não mudaram nesse ano. Não manter velhas idéias que elas chegam a
enterrar a notícia atual.

Mais Filosofia e Opiniões de Marcus Garvey

CEPAPA - Centro de Estudo, Pesquisa e Aplicação Pan-Africano - nos reunimos todas as tardes no Espaço Cultural Casa Aberta no Outeiro -centro/Ilhéus -Todas as tardes das 14:30 às 18:00 com leitura - debate - oficinas.  



 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Educação Tradicional na África



Quando fui nomeado membro do Conselho Executivo da Unesco, atribuí-me o objetivo de falar aos europeus sobre a tradição africana enquanto cultura. A coisa era um tanto difícil, já que na tradição ocidental foi estabelecido firmemente que, onde não há escrita, não há cultura. A prova da dificuldade é que, a primeira vez que propus que se considerassem as tradições orais como fontes históricas e fontes de cultura, provoquei apenas sorrisos. Alguns chegaram a perguntar, com ironia, que proveito a Europa poderia tirar das tradições africanas! Lembro-me de haver respondido: "A alegria, que vocês perderam". Talvez pudéssemos acrescentar hoje em dia: "Uma certa dimensão humana, que a civilização tecnológica moderna está prestes a fazer desaparecer".
O fato de não possuir uma escrita não priva a África de ter um passado e um conhecimento. Como dizia meu mestre, Tierno Bokar: "A escrita é uma coisa e o saber é outra. A escrita é a fotografia do saber, mas ela não é o saber em si. O saber é uma luz que está no homem. É a herança de tudo o que nossos ancestrais puderam conhecer e que nos transmitiram em germe, exatamente como o baobá, que já está contido em potência em sua semente".
Evidentemente, este conhecimento herdado e transmitido oralmente pode desenvolver-se ou estiolar-se. Desenvolve-se onde existem centros de iniciação e jovens para receber a formação. Perde-se sempre que a iniciação desaparece.
O conhecimento africano é imenso, variado. Con­cerne a todos os aspectos da vida. O "sábio" não é jamais um "especialista". É um generalista. O mesmo ancião, por exemplo, terá conhecimentos tanto em farmacopéia, em "ciência das terras" - propriedades agrícolas ou medicinais dos diferentes tipos de terra - e em "ciência das águas", como em astronomia, em cosmogonia, em psicologia etc. Podemos falar, portanto, de uma "ciência da vida": a vida sendo concebida como uma unidade onde tudo está interligado, interdependente e interagindo.
Na África, tudo é "História". A grande História da vida comporta seções que serão, por exemplo: a história das terras e das águas (a geografia), a história dos vegetais (a botânica e a farmacopéia), a história dos "filhos do seio da terra" (a mineralogia), a história dos astros (astronomia, astrologia) etc. Estes conhecimentos são sempre concretos e dão lugar a utilizações práticas. Na ordem dos conhecimentos, começa-se "por baixo", pelos seres e as coisas menos desenvolvidas ou menos animadas em relação ao homem, para "subir" até o homem.
A terra, considerada o "umbigo" do mundo, é o habitat principal de três tipos de seres. Vale dizer, é o habitat de três modos de manifestação da vida:
1) No fundo da escala, encontramos os seres inanimados, ditos "mudos", dos quais a linguagem é considerada como oculta, sendo incompreensível ou inaudível para o comum dos mortais. É o mundo de tudo o que está contido na superfície da terra (areia, água etc.) ou em seu seio (minerais, metais etc.)
2) Vêm em seguida os seres "animados imóveis". Tratam-se dos viventes que não mudam de lugar. São os vegetais, que podem estender e espalhar seus braços no espaço, mas dos quais o caule ou tronco não pode se mover.
3) Enfim, os "animados móveis", que vão do mais minúsculo animal até ao homem, passando por todas as classes de animais.
Cada uma dessas categorias encontra-se subdividida em três grupos:
1) Entre os inanimados mudos, encontramos os inanimados sólidos, os inanimados líquidos e os inanimados gasosos (literalmente: "fumegantes").
2) Entre os animados imóveis, encontramos os vegetais rasteiros, os vegetais trepadores e os vegetais de sustentação vertical, que constituem a classe superior.
3) Os animados móveis compreendem os animais terrestres (entre os quais os animais invertebrados, como os vermes, e os animais vertebrados), os ani­mais aquáticos e as aves.
Essas nove classes de seres constituem períodos de ensino específicos, mas que não são forçosamente sucessivos ou progressivos. O ensinamento é com efeito associado à vida e dispensado ao sabor das circunstâncias que se apresentam. Se, por exemplo, uma serpente surgir inesperadamente de uma moita, será a ocasião, para o velho mestre, de proferir uma lição sobre a serpente. Conforme seu auditório seja constituído de crianças ou de adultos, ele orientará diferentemente seu discurso. Ele poderá falar das lendas da serpente, ou dos remédios que podem curar sua mordida. Se ele estiver cercado de crianças, se estenderá de bom grado sobre os perigos da serpente, para que aprendam a proteger-se.
O estudo da terra, das águas, da atmosfera e de tudo que elas contêm enquanto manifestações de vida, constitui o conjunto dos conhecimentos humanos, legados pela tradição. Mas a maior de todas as "histórias", a mais desenvolvida, a mais significativa, é a história do ser humano, que se encontra no topo dos "animados móveis".
É o conhecimento do homem e a aplicação deste conhecimento na vida prática que faz do homem um ser "superior" na escala dos seres vivos. É somente então que se pode dizer que ele esteja no estado de neddaaku (na língua fula) ou de maayaa (no idioma bambara), isto é, no estado de homem completo.
A história do ser humano compreende, de um lado, os grandes mitos da criação do homem e de sua aparição sobre a terra, com o significado do lugar que ele ocupa no seio do universo, o papel que ali ele deve desempenhar - essencialmente um papel axial de equilíbrio - e sua relação com as forças de vida que o rodeiam e que o habitam. Compreende, por outro lado, a história dos grandes ancestrais, os inumeráveis contos educativos, iniciáticos e simbólicos e, enfim, a história propriamente dita, com as grandes tradições das realezas, as crônicas históricas, as epopéias e assim por diante.
A tradição transmitida oralmente é tão precisa e tão rigorosa que se pode, com diversas confirmações, reconstituir os grandes acontecimentos dos séculos passados nos mínimos detalhes, especialmente a vida dos grandes impérios ou dos grandes homens que ilustraram a história africana. (...)
Nas civilizações orais, a palavra compromete o homem, a palavra é o homem. Daí o respeito profundo pelas narrativas tradicionais legadas pelo passado, nas quais é permitido o ornamento na forma ou na apresentação poética, mas onde a trama permanece imutável através dos séculos, veiculada por uma memória prodigiosa que é a característica própria dos povos de tradição oral. Na civilização moderna, o papel substituiu a palavra. É ele que compromete o homem.
Mas é possível afirmar, com toda certeza e nessas condições, que a fonte escrita é mais digna de confiança que a fonte oral, constantemente controlada pelo meio tradicional?
É útil precisar que na África, o lado visível e aparente das coisas corresponde sempre a um aspecto invisível e escondido, que é como a sua fonte ou o seu princípio. Assim como o dia nasce da noite, todas as coisas comportam um aspecto diurno e um noturno, uma face aparente e uma escondida. A cada ciência aparente corresponderá, então, sempre uma ciência muito mais profunda, especulativa - podemos dizer, esotérica -, baseada na concepção fundamental da unidade da vida e da inter-relação, no seio desta unidade, de todos os diferentes níveis de existência. Existe aí um domínio que, por ser menos facilmente explorável, merece ser mais aprofundado e pesquisado, antes que os últimos depositários desta ciência desapareçam.
O conhecimento africano é um conhecimento global, um conhecimento vivo. É por isso que os anciãos, os últimos depositários desse conhecimento, podem ser comparados a vastas bibliotecas, das quais as múltiplas prateleiras estão ligadas entre si por relações invisíveis que constituem precisamente esta "ciência do invisível", autenticada pelas correntes de transmissão iniciática.
Outrora, este conhecimento era transmitido regularmente de geração em geração, mediante ritos de iniciação e pelas diferentes formas de educação tradicional. Esta transmissão regular foi interrompida devido a uma ação exterior, extra-africana: o impacto da colonização. Esta, chegando com sua superioridade tecnológica, com seus métodos e seu ideal de vida próprios, fez de tudo para impor seu próprio jeito de viver àquele dos africanos. Como jamais se semeia em terras não preparadas, as potências coloniais foram obrigadas a "roçar" a tradição africana para poder plantar sua própria tradição.
A escola ocidental começou, portanto, com­batendo a escola tradicional africana e perseguindo os detentores do conhecimento tradi­cional. Foi a época em que todos os curandei­ros foram jogados nas prisões como "charlatões" ou por "exercício ilegal da medicina"... Foi também a época na qual se impedia às crianças de falar sua língua materna, com o propósito de afastá-Ias das influências tradicionais. Isso chegou a tal ponto que, na escola, a criança que fosse surpreendida falando sua língua materna recebia pendurado no pescoço um quadro chamado "símbolo", no qual estava desenhada uma cabeça de burro, e ficava privada do almoço...
Os grãos desta nova tradição, uma vez semeados, cresceram e deram frutos. É por isso que a jovem África, nascida da escola ocidental, tem tendência a viver e a pensar de modo europeu, pelo que não podemos repreendê-Ia, pois é apenas o que ela conhece. O aluno vive sem­pre de acordo com as regras de sua escola.
Na época colonial, a transmissão iniciática, que se fazia outrora às claras e de uma maneira regular, teve que refugiar-se numa espécie de clandestinidade. Pouco a pouco, o afastamento das crianças de suas famílias fez com que os anciãos não encontrassem mais à sua volta jovens suscetíveis de receber os ensinamentos. A iniciação saiu das cidades para refugiar-se no campo. Mas o golpe de misericórdia lhe foi dado por ocasião da independência, com a base de idéias e ideologias exclusivamente européias.
Enquanto o colonialismo, com efeito, suscitava reservas e penetrava pouco no campo, estas mesmas idéias européias, veiculadas por partidos políticos modernos, mobilizaram massas até o mais recôndito vilarejo, de tal maneira que a transmissão quase não encontra mais terreno onde possa ser exercida.
Numa época em que diversos países do mundo, por intermédio da Unesco, consagram recursos financeiros e esforços materiais para salvar os grandes monumentos históricos ameaçados, não seria ainda mais urgente salvar o prodigioso capital de conhecimentos e de cultura humana acumulado, ao longo de milênios, nesses frágeis monumentos que são os homens, e do qual os últimos depositários estão desaparecendo?
Em nossos dias, devido à ruptura na transmissão tradicional, quando um desses sábios anciãos desaparece, são todos os seus conhecimentos que são devorados com ele pela noite. Eu não desejo isso nem para a África, nem para a humanidade. ...
Tradução de Daniela Moreau
(texto originalmente editado em francês como capítulo do livro Aspects de la Civilization Africaine, Paris, ed. Présence Africaine, 1972 e publicado em português na revista THOT n. 64, 1997).
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